quarta-feira, maio 14, 2008

É melhor olhar para o céu do que lá viver, escreveu Truman Capote. Durante muito tempo pensei que não era assim, acreditava que a perfeição se podia cruzar com a realidade. Comprei uma escada muito alta, instalei-a no telhado, escolhi uma nuvem e iniciei uma missão impossível. Todos os dias vivia como podia, circunscrita à minha vida terrena que se ia esvaziando, enquanto à noite subia pela escada e me escondia em sonhos. Deixei de viver neste mundo e estacionei numa realidade alternativa. A escada era imensa, íngreme e traiçoeira, difícil de subir. E cada vez que era obrigada a descer à pressa ou me empurravam cá para baixo, magoava-me e, com a teimosia das crianças obstinadas, voltava a subir. Quanto tempo estive alienada? Nem eu sei .. Talvez 3 anos .. Mais de 1000 dias da minha vida, a tentar fazer equações com variáveis impossíveis de combinar. A escada levava a uma nuvem na qual não existia nada, apenas ar condensado, uma pura ilusão de algodão, sem peso nem estrutura. Uma nuvem imensa, feita de ilusões que pairava sobre o meu mundo, roubando-lhe o sol e ofuscando-me de todos os prazeres da vida. Vivia num labirinto, uma enorme armadilha que montara a mim própria. Por causa dessa nuvem vivi situações intoleráveis, deixei-me enfraquecer, esperei e desesperei até não esperar mais nada. Esperei até perceber que estava errada e que havia um mundo lá em baixo à minha espera. Não quero subir outra vez para outra realidade quando me voltar a apaixonar. Não quero ter de lutar para conquistar o afecto, nem o tempo, nem o amor de ninguém. Não quero correr atrás de nada. Quero um homem ao meu lado que me acompanhe num caminho feito de terra, sem ilusões e com os pés bem assentes na realidade, mesmo que olhe para o céu. Deitei fora a escada e voltei a ser quem era. E quando olho para o espelho, vejo outra vez aquela luz que tinha cá dentro a voltar, a brilhar com mais força. Afinal nunca se tinha apagado. Estava cá, sempre esteve, precisava apenas de ser alimentada de uma energia real e não de sonhos e migalhas. Os amores platónicos servem para escrever livros, músicas, mas tornam-nos alérgicos à vida. Prefiro a terra, com cheiros, formas, cores e texturas. Prefiro sonhar com o mundo do que viver num mundo de sonhos. Prefiro estar cá em baixo, onde nasci, sem imaginar que tenho asas ou que o céu é para mim.
Afinal .. o céu pode esperar.

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