sábado, abril 28, 2007

Como é incompleta a Odisseia! A história devia ter contado os milhares de trabalhos de Penélope a tentar defender a sua casa e o seu coração e nao os doze trabalhos de Ulisses. De que valem Cíclopes aterradores, ilhas encantadas, cercos de guerras que duram 10 anos e sereias hipnoticas e malvadas que fazem naufragar os navios, comparados com a luta pela sobrevivencia de um amor incerto e sem garantias durante mais de 20 anos, num tempo em que a ausencia nao tinha outra resposta senao o silencio e o desconhecimento? Penélope era forte. Nao desistiu de esperar, mesmo sem telefones, e-mails, ou mensagens escritas. Hoje em dia ninguem esperava.
A historia da humanidade esqueceu se de contar outra historia, a historia de todas as Penélopes, heroínas ignoradas e silenciadas pelo poder da palavra que, ate ha pouco mais de um seculo, era, como tudo no mundo, propriedade e privilegio quease exclusivo dos homens. É certo que Sherazade (a narradora do conto "as mil e uma noites", para quem n sabe :)) contou as suas historias, mas porque foi obrigada. De qualquer forma, teria sido sacrificada como todas as que a precederam e que pereceram porque nao tinham o dom da palavra nem a astucia de pedir mais uma noite de vida, e depois outra, e outra ainda, até amolecer o coraçao do rei que lhe trocou o destino fatal pela conjugalidade imposta. Sherazade é a primeira mulher moderna da historia da literatura; ela sabia o que estava a fazer quando pediu ao rei uma oportunidade. Sabia que a beleza e a graça femininas perdem força e brilho com a convivencia, mas a astucia, o humor e a inteligencia sao atributos que se transformam em beleza e nunca enjoam os homens inteligentes, ao contrário das bonecas de porcelana sem cérebro que eles desejam como objectos de prazer e que depois as substituem por outras, mais jovens e mais belas.

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